Quanto vale a sua vida?

Campanha Setembro Amarelo 2018 trabalha com a prevenção ao suicídio e reforça a importância de falar sobre a depressão

Por Aline Christina Brehmer 26/09/2018 - 11:41 hs
Foto: Aline Christina Brehmer/Jornal Café Impresso Divulgação/Internet

Até a meia-noite de hoje, 32 brasileiros irão tirar sua própria vida. Esse dado, assustador e ao mesmo tempo servindo como um forte alerta, aponta que, em média, a cada 45 minutos uma pessoa comete suicídio no país – e para muitas pessoas esse alguém era próximo.

A depressão está presente e rondando as pessoas a todo momento e, de alguma forma, quem sofre com essa doença está dando sinais do que está a prestes a acontecer – muitas vezes é a maneira com a qual esse alguém pede ajuda, ainda que nem sempre reconheça que precisa de auxílio.

Mas então, o que fazer? Como perceber esses sinais? Como reparar que alguém não está bem? De que forma definir o que é tristeza e o que é depressão?

 Precisamos falar sobre depressão

A campanha Setembro Amarelo 2018 traz como slogan a frase: “Precisamos falar sobre depressão”. O psicólogo Pedro Silva Ferreira explica que na grande maioria dos casos, a pessoa que cogita a possibilidade de tirar sua própria vida expressa essas ideias de alguma forma, seja através de brigas, xingamentos, postagens em redes sociais e até mesmo provocando ferimentos e mutilações em si mesmas.

“Não é incomum que as pessoas sejam incompreendidas, afinal, muitas vezes as palavras não conseguem traduzir o que ela está sentindo. Mas acredito que de forma geral também falte um pouco de empatia de quem está de fora, de olhar para o outro enxergando-o como pessoa, que sente e sofre igual a todas as demais. Muita gente pensa que a única dor que vale é a sua, sem olhar ao redor e ver que o sofrimento se manifesta de inúmeras formas”, analisa Ferreira.

 Uma dor que não se vê (mas é sim sentida)

Para o psicólogo, essa falta de sensibilidade por parte de algumas pessoas não necessariamente está ligada ao egoísmo, mas sim a uma forma de educação e crescimento na qual a depressão não é vista como uma doença grave e que precisa ser levada a sério.

“Nossa compreensão de dor é muito fixada em ossos quebrados, queimaduras, naquilo que podemos ver e atestar que realmente dói. Se o seu braço está quebrado e vejo que ele não pode estar sendo usado, que você não pode se mexer, isso é um fato e imagino que seja dolorido.

Quando um câncer é detectado, existe uma tomografia e um médico afirmando que você está doente. Mas na depressão, que leva ao suicídio, essa dor não encontra autorização para ser sentida e a pessoa não se vê possibilitada de sentir aquilo, porquê os outros não reconhecem isso como dor”, exemplifica Ferreira.

Ele cita o que, em seu ponto de vista, é um grave erro – que muitas vezes não tem volta. “A partir do momento que você trata essa dor sentimental como frescura, apontando a outra pessoa como fraca, está desmotivando-a ainda mais de viver, tornando seu sofrimento ilegítimo. Se aquela pessoa que está com depressão sente que sua dor é vista como algo fingido, começa a pensar que a única forma de mostrar realmente seu sofrimento é a partir de meios mais drásticos, até como forma de comprovar para si mesma que essa dor é real”, reflete o psicólogo.

 Auxílio psicológico

Não existe outra saída e, como a própria campanha induz: é preciso falar sobre suicídio, depressão, sobre tristeza e as formas de lidar com cada uma dessas situações, que, em sua maioria, exigem uma alta dose de empatia e também acolhimento.

“Família, amigos, pessoas próximas: todos podem e devem ajudar. Mas, muitas vezes, as lutas internas de alguém estão relacionadas a determinados vínculos afetivos e, por isso, o acompanhamento a um psicólogo é tão importante. Junto a esse profissional, a pessoa que está passando por essa fase tão difícil irá descobrir novas maneiras de ver e seguir a vida”, aconselha Ferreira.

Segundo ele, a depressão surgiu como uma “nova forma” que as pessoas encontraram para lidar com o sofrimento. “As pessoas sabem sentir alegria, euforia, mas não aprendem a lidar com a tristeza e frustração, o que é parte da vida. Todos, enquanto vivemos, vamos trilhando por várias formas de sofrimento: neurose, ansiedade, histeria, pânico. Em algum momento, surge uma situação com a qual não sabemos lidar e acabamos afrouxando nossa firmeza, quebrando”, comenta.

 Retomando sonhos

Para Ferreira, esse assunto não trata sobre apontar culpa e responsabilidade às pessoas que perderam alguém para a depressão. “Os seres humanos simplesmente se ajeitam da única maneira que conseguem se ajeitar e não existe nada de errado nisso. O depressivo é justamente essa pessoa: que não sonha e não almeja. Imagine uma pessoa que não quer nada, para onde iria quando acordasse hoje de manhã? Por isso que essa pessoa precisa de alguém que caminhe junto para esse amanhã”, comenta.

Ele alerta também que é importante diferenciar tristeza da depressão. “Pessoas tristes podem vir a ser pessoas deprimidas, mas pessoas deprimidas não são meramente pessoas tristes, existe algo muito mais profundo ali”.

 Toda ameaça é grave

Ameaças de pessoas que falam sobre tirar sua própria vida nunca, em hipótese alguma, devem ser relativizadas. “A grande questão é: por que alguém prefere tirar sua própria vida? Qual é o nível de dor que uma pessoa pode chegar a sentir para tomar essa decisão sem volta?”, enfatiza Ferreira.

Comentários ameaçadores, fixação pela morte, atitudes suspeitas, entre tantos outros indícios de possíveis casos de suicídio reúnem a mesma dica aos que podem ajudar: ouça, converse, se interesse e indique a essa pessoa, que está passando por problemas, profissionais capacitados que possa estar ajudando-a.

“Não se deve ter medo de falar sobre o sofrimento. Cuidar da saúde vai além do que os exames apontam, está no nosso jeito de viver e pensar. Também é certo que muitos preconceitos precisam ser desfeitos, além do combate à desinformação. Tratar a depressão como uma “simples doença” demonstra o despreparo de muitas pessoas sobre o que isso realmente representa. Alegria e tristeza, tudo isso faz parte da vida e, sendo assim, o que se pode fazer é seguir em frente, encontrando outros lugares, outras pessoas e uma nova maneira de viver”, garante Ferreira.

 Uma ligação pode salvar vidas

Desde o início de julho deste ano, o número do Centro de Valorização da Vida (CVV), 188, está disponível gratuitamente em todo o território nacional. A medida foi possível por meio de uma parceria com o Ministério da Saúde.

O CVV, órgão sem fins lucrativos que funciona desde 1962, é dedicado a escutar qualquer pessoa que esteja passando por dificuldades, funcionando como uma prevenção ao suicídio. Em 2017, recebeu cerca de 2 milhões de ligações. A meta, em 2018, é ultrapassar 2,5 milhões de telefonemas.  Acesse o site do Centro de Valorização da Vida (CVV) para mais informações.

 Indaial prepara ações sobre prevenção ao suicídio

A Assessoria de Assuntos para a Juventude, com apoio das Secretarias de Saúde e Educação e do Parlamento Jovem, promoverá uma semana de palestras, de 24 a 28, com mais de três mil alunos do ensino médio das escolas: EEB Frederico Hardt, Colégio Metropolitano, EEB Profª Attela Jenichen, EEB Raulino Horn, EEB Prefeito Germano Brandes Junior e Colégio Adventista.

O tema “Eu me importo com você, vamos conversar?” será abordado nos próprios educandários, conforme cronograma preestabelecido, por meio de profissionais da saúde e educação e do palestrante Giwelton Murilo Mattos.

No dia 21, pela manhã, haverá uma qualificação da rede de atenção básica sobre prevenção de suicídio com enfermeiros das equipes da saúde da família, no Centro de Convivência. No dia 12 os profissionais da saúde participaram de uma webpalestra com Alexandre Paim Dias, no Centro de Convivência.

Os profissionais que atuam nos serviços de saúde mental do município se reuniram em comissão para elaborar e implantar o Protocolo de Atendimento às pessoas em risco ou tentativa de suicídios. Essa construção surge para melhorar fluxos de pacientes encaminhados conforme avaliação do risco de suicídio. O Protocolo foi elaborado inicialmente apenas pela Secretaria de Saúde, mas sua revisão terá parceria das demais secretarias e órgãos de defesa dos direitos.